Da abundância à escassez: a crise hídrica no Sudeste

Negligência na gestão dos recursos naturais, um severo período de seca e a cultura do desperdício: a maior região metropolitana do Brasil à beira do colapso

A represa de Paraibuna, que integra a bacia do rio Paraíba do Sul, é um dos reservatórios paulistas que teve seu cenário alterado pela seca. Foto: Flávio Forner/XIBÉ
A represa de Paraibuna, que integra a bacia do rio Paraíba do Sul, é um dos reservatórios paulistas que teve seu cenário alterado pela seca. Foto: Flávio Forner/XIBÉ

por Thiago Medaglia

*Uma versão original deste artigo foi veiculada na revista Conhecimento, coletânea que reúne parte dos artigos publicados pela Fundação SOS Mata Atlântica na imprensa escrita em 2014

Em uma palestra no formato TEDx, visualizada na internet por milhões de pessoas em todo o mundo, o engenheiro de infraestrutura Fahad Al-Attiya discorre sobre a missão fundamental de seu cargo no governo do Qatar: garantir a segurança alimentar do pequeno – porém, milionário – país. A dimensão do desafio tem pouco a ver com a densidade populacional do protetorado situado em uma península no Golgo Pérsico habitada por 2 milhões de pessoas. O problema é mesmo a falta de água, consequência do clima desértico, com chuvas imprevisíveis e irregulares. Para piorar, as limitadas águas subterrâneas foram superexploradas. Ao contrário do Brasil, o Qatar nasceu em crise hídrica.

Para ilustrar o cenário, em um dado momento da exposição, Fahad Al-Attiya pede ao público que atente para um slide. Em um quadro escuro, duas formas arredondadas de bordas claras e tamanhos diferentes representam o índice pluviométrico anual de dois países: o do Qatar, bem menor (74 milímetros), e o do Brasil (1.782 milímetros). Na árida península arábica, a solução encontrada para lidar com a adversidade natural foi desenvolver e construir gigantescas máquinas dessalinizadoras, aproveitando-se do oceano próximo, para suprir o consumo doméstico de água doce.

Ao menos até agora, essa tecnologia não foi capaz de gerar excedentes para a agricultura, atividade que demanda volume muito maior de água do que o consumo humano em zonas urbanas. “Chegaremos à subsistência alimentar”, afirma, na apresentação, o engenheiro, que trabalha em um planejamento estratégico direcionado para um período de dez anos (a palestra é de abril de 2012). A privação do recurso natural parece ter fertilizado o campo das ideias naquele país.

Embora genérica (a área de todo o Qatar equivale à metade do território do estado de Sergipe), a comparação apresentada por Fahad Al-Attiya é didática e ajuda a entender a importância da gestão de políticas públicas relacionadas aos recursos naturais. É útil, também, para compreender de que maneira o Brasil, em especial, a região Sudeste, foi capaz de realizar o caminho inverso ao converter a invejada (ainda que discutível) abundância de fontes d’água na atual escassez.

Conforme demonstraram a urbanista Marussia Whately e a jornalista Rebeca Lerer, em artigo publicado no The Guardian, para a comunidade internacional, parece espantoso que uma nação tropical entrecortada por uma vasta rede hidrográfica e repleta de aquíferos subterrâneos alimentados por chuvas torrenciais fique sem água. É claro que existe um componente climático no cenário atual vivenciado pelo estado de São Paulo, que passa por seu terceiro ano consecutivo de alta nas temperaturas e baixa ocorrência de chuvas – 2014 foi o ano mais quente da história do planeta desde 1850, quando tiveram início as medições. As condições, portanto, seriam graves por si só, mas foram intensificadas pelo esgotamento das represas responsáveis por abastecer a Região Metropolitana de São Paulo. Dados indicam que, desde 2011, mais água sai do que entra nos reservatórios administrados pela Sabesp. Por que um plano de contenção não foi traçado e executado desde então é uma explicação que as autoridades devem à sociedade.

Em janeiro de 2015, com represas como as do Sistema Cantareira, que abastece mais de 9 milhões de pessoas, a 5% de seu volume total, e a do Alto Tietê (3 milhões de pessoas) a 15%, o governador Geraldo Alckmin (que, em outubro de 2014, durante o debate eleitoral, garantiu a integridade do abastecimento) chegou a cogitar um racionamento bastante penoso para a população: cinco dias sem água e dois dias com – do contrário, as reservas disponíveis poderiam durar apenas mais 6 meses.

Algumas das principais críticas feitas ao governo estadual recaem sobre a falta de investimentos adequados em obras de saneamento básico, que resultam, por exemplo, em perdas na distribuição da água encanada, com um índice superior a 34% em todo o estado. Outro ponto importante, segundo Samuel Barreto, diretor do Movimento Água para São Paulo, da ONG The Nature Conservancy (TNC), é que hoje “são gerados 60 metros cúbicos de esgoto por segundo na região metropolitana, o equivalente a quase dois sistemas Cantareiras”. Tratado, esse volume poderia ser reaproveitado.

A redução do desperdício é um dos pontos destacados por especialistas como sendo fundamental para solucionar o abastecimento em áreas populosas. Em termos gerais, a distribuição do consumo hídrico no mundo é de 70% para a agricultura, 20% para a indústria e 10% para o consumo humano. Todos os três setores desperdiçam muita água, como, por exemplo, nos campos agrícolas irrigados por sistemas de aspersão com um pivô central giratório, onde a maioria das gotas é perdida na evaporação ou escorre para córregos e riachos. A percepção de que a água é um recurso abundante parece contribuir para excessos desse tipo. Mas ela não poderia estar mais equivocada. Basta aprofundar o olhar sobre as característias naturais do planeta.

Planeta água?

 

A hidrosfera – a soma de toda a água da Terra e o ciclo que a distribui – é um sistema fechado e delicado, resultante de uma equação especial na qual fazem diferença a composição única da nossa atmosfera e a temperatura ideal, decorrente da distância do Sol. Vênus é muito quente, Marte é muito frio, mas uma conjuntura especial faz com que rios e mares proliferem pelo planeta azul.

O arranjo é tão hermético, que o teor de umidade da Terra quase não sofre alterações há milhões de anos. Isso significa dizer que a água bebida pelos dinossauros é a mesma que hoje precipita na forma de chuva, e que as xícaras de café na ilha de Manhattan, em Nova York (EUA), são cheias com a mesma água que cobre o leito do rio Ganges (Índia) ou que irriga as plantações de laranja do oeste paulista (mais sobre o delicado equilíbrio da água no planeta nesta reportagem da revista National Geographic Brasil, assinada pela escritora americana Barbara Kingsolver). A água nos liga ao passado e uns aos outros.

Os oceanos – dos quais pouco sabemos, mas nos quais causamos enorme impacto – produzem 70% do oxigênio que respiramos e determinam o clima mundial. Em todos os cantos, cientistas alertam para o fato de já vivenciarmos as consequências de um aumento na temperatura dos oceanos na forma de tempestades tropicais mais frequentes e mais fortes, o que favorece a formação de furacões e ciclones. Como se vê, as questões que envolvem a água são abrangentes, complexas e podem estar relacionadas à pesca predatória na costa africana, ao abastecimento urbano em São Paulo ou a ventos de 160 quilômetros por hora no Caribe. Seus desdobramentos, certamente, são locais, mas não se engane: água é um tema global.

É diante desse contexto que uma questão se anuncia na era do homem: haverá água suficiente em um mundo cada vez mais populoso (somos 7 bilhões agora e seremos 9 bilhões em 2045)? A resposta é não. Ainda que seja este um planeta coberto pelo líquido precioso em dois terços de sua extensão, o olhar superficial engana. Mais de 97% da água da Terra é salgada e em torno de 2% se encontra sob a forma de neve e gelo, ou seja, resta menos de 1% para abastecer indústrias, refrigerar usinas elétricas, irrigar cultivos agrícolas, controlar incêndios e prover água potável para as comunidades humanas.

No caso específico do Brasil, pesquisadores, jornalistas e ambientalistas têm chamado a atenção para a poluição da água desde a década de 1980. Uma vasta produção científica tem sido sistematicamente ignorada e, ancorados na conivência de políticos e partidos, setores como o de grandes construtoras e empreiteiras, do agronegócio e da indústria, tem feito prevalecer seus interesses frente às constatações técnicas.

“A atual crise hídrica está relacionada com o descaso com os recursos florestais”, assinala Malu Ribeiro, coordenadora do Rede das Águas, programa de mobilização e monitoramento da qualidade da água da SOS Mata Atlântica. O ápice dessa conduta parece ter sido o projeto do Novo Código Florestal, proposto em meados de 201o por Aldo Rebelo, atual ministro de Ciência e Tecnologia, no qual a extensão legal de matas ciliares – essenciais para a proteção dos recursos hídricos – foi reduzida. Estudos indicam que, nos estados da Mata Atlântica, como no Rio de Janeiro e em São Paulo, o déficit de mata ciliar chega a 53 milhões de hectares.

E o problema vai além das fronteiras da Mata Atlântica. Em uma recente compilação de estudos relacionados às questões climáticas e à Amazônia, o pesquisador, Antonio Nobre, do Centro de Ciências do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), destacou que, entre outras funções naturais, “a Amazônia cumpre o papel de ‘bomba d’água biótica’” – ou seja, o “oceano verde” da floresta tropical capta a umidade do oceano Atlântico, que é bombeada para o interior da América do Sul. Desprovida de sua cobertura original, a grande floresta já dá indícios de falhar no generoso papel de disseminadora da umidade.

A atual seca no Sudeste, segundo Nobre, está sendo avaliada por diversos pesquisadores e “embora seja cedo para afirmar, não podemos descartar a relação com o cenário ao Norte”. Uma das principais consequências da degradação florestal é a irregularidade na ocorrência de chuvas no próprio bioma e em outras zonas do continente. Por meio de rios aéreos de vapor, a Amazônia exporta umidade e ajuda a irrigar áreas de Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil, além de países como Bolívia, Paraguai e Argentina. “Sem os serviços da floresta, porções do continente que hoje são produtivas podem desenvolver um clima inóspito, quase desértico”. E complementa: “Se os paulistas querem garantir que a chuva retorne e permaneça, devem replantar a Mata Atlântica e preservar a Amazônia”.

Rios da Amazônia
Aproxime para ver o nome dos rios

Em mundo cada vez mais quente, a tendência é que, nas próximos décadas, a água deixe de ser um recurso acessível e gratuito para se transformar em algo escasso e caro. A boa notícia – além das chuvas mencionadas por Fahad Al-Attiya – é que as maiores reservas hídricas conhecidas estão no Brasil. A começar pelo mais volumoso rio, o Amazonas. Nascido nos Andes, ele percorre 6 675 quilômetros até desembocar no oceano Atlântico com uma incrível vazão média diária de 17 trilhões de litros – o equivalente a 15% de toda a água enviada ao mar pelos rios do planeta.

Não bastasse, essa gigantesca bacia hidrográfica é apenas a expressão mais impressionante de um país sem igual no que diz respeito à abundância de rios, lagos e aquíferos. Somadas, as torrentes brasileiras concentram mais de 11% de toda a água doce disponível na Terra. As questões centrais são de que forma o recurso será utilizado nas próximas décadas e o que não fazer para inviabilizar sua exploração. Até porque, em muitos casos, a fartura é questionável, pois os maiores rios do país estão distantes das maiores manchas urbanas.

A água, pode-se dizer, é um recurso mal distribuído no Brasil. Em torno de 80% do líquido encontra-se na Amazônia, onde vive apenas 5% da população. Muitas dessas pessoas, ainda que cercadas de grandes rios, não têm acesso à água potável. A situação é pior no semiárido nordestino, onde 18 milhões de brasileiros convivem com severos índices de evaporação. No interior destas duas regiões (Norte e Nordeste), assim como em outros pontos isolados do território nacional, há ainda outro agravante: a falta de saneamento básico faz com que a água se torne propagadora de doenças.

Em todo o mundo, estima-se que 3,3 milhões de pessoas morrem por ano vítimas de doenças relacionadas com a água. O simples ato de lavar as mãos com sabonete pode reduzir quase pela metade a ocorrência de diarreias. Um total de 10% da população brasileira (19 milhões de pessoas) não tem acesso à água tratada e um número ainda maior (35 milhões de brasileiros) vive sem coleta de esgoto.

Um dos motivadores deste cenário é a grande densidade populacional nos centros urbanos, o que leva a pontos críticos no fornecimento de água em metrópoles. A Região Metropolitana de São Paulo, como se sabe, vivencia essa condição. A maior cidade do hemisfério Sul retira metade das águas que abastecem sua população de represas situadas em áreas de mananciais. Acontece que as mais próximas – como as bacias da Billings e Guarapiranga – sofrem os efeitos da ocupação desordenada e, para piorar, rios e córregos locais não podem ser utilizados para esse fim porque estão sujos.

O Projeto Tietê, realizado desde 1992, é um dos maiores programas de saneamento do Brasil e um exemplo das dificuldades envolvidas na despoluição. “Poluir é rápido. Recuperar demanda tempo e dinheiro”, resume Samuel Barreto. Estações de tratamento foram construídas, a rede coletora estendida e bilhões gastos na tentativa de resgatar o rio. Por conta de tais esforços, além da pressão da opinião pública, de ongs e do Ministério Público, o trecho do rio considerado morto reduziu de 530 quilômetros em 1993 para os atuais 71 quilômetros. É uma imensa vitória, mas que precisa ser acompanhada de uma nova relação com a água. “A lógica ‘reserva, usa, descarta’ precisa ser renovada”, enfatiza Barreto. “O Tietê é um espelho do descaso das pessoas com os córregos e rios que deságuam nele”, complementa Malu Ribeiro.

Nossa distorcida relação com a água me fez recordar de um ensinamento budista. Nascido no Vietnã, o monge Thich Nhat Hanh costuma citar aspectos da natureza para ilustrar suas mensagens. Em um texto, o líder religioso se vale de uma metáfora com a água ao destacar a necessidade de abandonar antigos conceitos para transcender o que está estabelecido e trazer à tona algo novo: “assim como um bloco de gelo que impede a fluidez da água, o conhecimento é um obstáculo à compreensão”. Há décadas, tal qual uma ideia fixa, o brasileiro tem consumido água de maneira desmedida, como se houvesse a certeza de lidar com um recurso inesgotável. É chegada a hora de derreter o bloco de gelo.

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