“Um caminhão passou buzinando feito louco, avisando que a barragem rompeu. Ele foi parando e gritando: ‘Pula! Pula!’. As pessoas foram se jogando na caçamba, umas sobre as outras”. O depoimento é de uma sobrevivente do desastre de Mariana, município a 120 quilômetros de Belo Horizonte, ao jornal O Estado de S. Paulo. “No final, o caminhão nem estava mais parando para o pessoal entrar”. Na última quinta-feira, 5, duas barragens da mineradora Samarco – uma joint-venture entre a Vale S.A. e a BHP Billiton, duas das maiores empresas de mineração do mundo – se romperam, deixando um rastro de lama cujo impacto ao meio ambiente ainda não pôde ser totalmente mensurado. A lama é um subproduto das atividades de mineração, que usa água para extrair os minérios dos terrenos.

A matéria original incluía um comparativo interativo (ferramenta Juxtapose, pelo Código Urbano) entre imagens de satélite de alta resolução, cedidas pela DigitalGlobe, de 21 de julho e 10 de novembro de 2015, antes e depois da tragédia em Mariana — para ver a dimensão do estrago e comparar os mesmos locais arrastando uma barra vertical.

A cidade mineira de Governador Valadares, que fica a mais de 300 quilômetros da barragem da Samarco, já decretou estado de calamidade pública depois que o fornecimento de água teve que ser cortado quando o Rio Doce foi contaminado pela lama trazida por um de seus afluentes que cruzam o município de Mariana. Governador Valadares é um dos 228 municipios mineiros e capixabas banhados pelo Rio Doce, que tem 879 quilômetros de extensão entre Minas Gerais e Espírito Santo e alcança mais de 3,5 milhões de pessoas, segundo o Comitê da Bacia Hidrográfica do rio. Retirando o oxigênio e impedindo a passagem de luz, a lama da mineradora ameaça a vida do rio.

Mas a enxurrada de dejetos destruiu também todo o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, onde viviam 600 pessoas que tiveram que deixar suas casas às pressas depois que vizinhos, aos gritos, alertaram toda a comunidade – não houve qualquer sirene de emergência. De acordo com especialista ouvido pelo jornal Brasil de Fato, a tragédia pode deixar infértil o solo de toda a região. Só pelo desastre ambiental, a Samarco deve ser multada em R$ 100 milhões pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Há pelo menos seis mortos.

No comparativo sobre o distrito de Bento Rodrigues (mesmas datas, julho e novembro de 2015), parte das casas aparecia já sem telhado, restando apenas partes de suas estruturas.

Mapas livres e humanitários

As imagens de satélite inseridas nesta matéria também estão servindo de base para um grupo de voluntários de todo o Brasil que, remotamente, estão produzindo um novo mapa da região. Estas informações são editadas e distribuídas no OpenStreetMap, o mapa aberto do mundo. Todos os dados produzidos são redistribuídos e estão disponíveis sob uma licença aberta, permitindo que sejam reutilizados para qualquer fim, sem necessidade de autorização de uso. Na imagem abaixo, que mostra a divisão de tarefas entre os voluntários, é possível ver a área que está sendo mapeada inicialmente:

Captura da plataforma de tarefas Humanitarian OpenStreetMap para mapeamento em Mariana
Tarefa HOTOSM #1317 (mapeamento humanitário pós-rompimento de barragem).

O objetivo é que este novo mapa dê subsídios para comunidade local e organismos atuantes na região avaliem o impacto e trabalhem melhor para mitigação dos efeitos da tragédia. Qualquer pessoa pode participar. Para isso, basta ter acesso a um computador com internet e seguir as instruções na página wiki da campanha de mapeamento.